terça-feira, 26 de junho de 2012

Guerra do Paraguai

Na diplomacia, os princípios devem preceder os interesses econômicos Leonardo Attuch De todos os países da América do Sul, nenhum tem tantos interesses econômicos no Paraguai quanto o Brasil. Basta citar a usina hidrelétrica de Itaipu, que gera a maior parte da energia brasileira a partir de águas que estão do outro lado da fronteira, e a produção de soja, que é feita por "brasiguaios" e escoada pelo porto de Paranaguá. Portanto, o Brasil, gigante regional, poderia decidir por si só que rumo tomar na crise paraguaia. E se essa decisão levasse em conta apenas o bolso, tudo indica que o novo presidente Federico Franco custaria menos ao Brasil do que Fernando Lugo. Nas suas primeiras declarações, Franco prometeu pagar dívidas de Itaipu e proteger as terras dos brasiguaios, ameaçadas por movimentos camponeses. Ocorre que, na diplomacia, os princípios são mais importantes do que os interesses econômicos imediatos. E a presidente Dilma Rousseff passou muito bem pelo seu primeiro grande teste internacional, ao não ceder a um governo ilegítimo. O primeiro acerto foi compartilhar a decisão sobre a crise com os países do Mercosul e da Unasul, valorizando o processo de integração regional – o que reforça a liderança brasileira. O segundo foi deixar claro que valores democráticos são inegociáveis. No Paraguai, o que ocorreu nas últimas horas só pode ser definido por uma palavra: golpe. Ainda que sem tanques nas ruas, foi um golpe parlamentar. Um golpe branco, e que já vinha sendo previsto pelas elites locais e pelas autoridades americanas desde 2009, segundo documentos vazados pelo Wikileaks. Um processo de impeachment sem direito de defesa fere princípios constitucionais de qualquer país – inclusive do próprio Paraguai. Há quem argumente que o Brasil estaria sendo mais realista do que o rei, porque, afinal, no próprio Paraguai, não há grandes manifestações nas ruas. E que Brasil, Argentina e Uruguai estariam se unindo numa nova Guerra do Paraguai. Mas, para um continente que ainda luta para curar as feridas de ditaduras tão recentes, este é bom combate. E não cabe admitir qualquer precedente.

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