sexta-feira, 8 de julho de 2011

Depois da demissão, a nomeação

Carlos Chagas

Deve a presidente Dilma Rousseff estar concluindo que governar o Brasil é participar de uma interminável corrida de obstáculos. Ultrapassado um, logo vem outro. Não terá sido fácil levar Alfredo Nascimento a exonerar-se do ministério dos Transportes. Ele não entendeu o primeiro recado, que era para sair junto com os quatro assessores flagrados em atos de corrupção e postos para fora por ato isolado e unilateral da presidente. Ficou. Por conta dos 42 deputados e 6 senadores do PR, ainda arrancou uma nota de apoio e confiança do palácio do Planalto.

Como se a lambança continuasse, agora atingindo um filho do ministro, a demissão surgiu inevitável, mas Nascimento ainda tentou sobreviver, mobilizando seu partido. Não conseguiu. O fato de Dilma haver convocado o secretário-executivo do ministério para despachar assuntos do PAC, sem dar conhecimento ao ministro, foi mais um sinal. Caso não escrevesse a carta de despedida, seria despedido sem ela.

Tudo resolvido? Nem pensar. O PR, agora presidido pelo ex-ministro, reivindica o lugar e não aceita a solução ideal para Dilma, que seria efetivar o secretário-executivo Paulo Sérgio Passos. A solução ficou inconclusa, com as bancadas do partido já ameaçando de forma ostensiva obstruir os trabalhos parlamentares se não vier a indicar o novo ministro.

Há quem sustente que a presidente deve aproveitar a oportunidade para libertar-se de uma vez das sucessivas chantagens que vem sofrendo no Congresso, não apenas por parte do PR, mas, em grau bem maior, do PMDB e do PT. Sem contar a herança recebida do Lula, que impôs boa parte do ministério. O preço poderia sair caro, ainda que compensador. Ensejaria a Dilma livrar-se de outros ministros que lhe foram enfiados goela abaixo pela base oficial e pelo antecessor, obviamente isolados no governo, alguns até hoje sem ter sido chamados para despachar em seu gabinete. Vale evitar o constrangimento de fulanizá-los, mas estão à vista de todos. Em especial aqueles que nenhuma intimidade tinham e continuam não tendo com os setores da administração que dirigem.

***

UM OUTRO ROBERTO JEFFERSON

Quanto a Alfredo Nascimento, enfrentará dois problemas: voltando ao Senado, precisará explicar-se ao Conselho de Ética, mesmo composto, em maioria, por senadores acostumados a não condenar ninguém. O problema é que se lhe faltou idoneidade para continuar ministro, como encontrará condições para exercer o mandato?

Acresce que voltando a presidir o PR, de que forma entrará no gabinete presidencial para as reuniões do Conselho Político e sucedâneos? Envergonhado? Arrogante? Disposto à revanche? Será bom interlocutor, caso chamado a indicar o novo ministro? A

A presidente já enfrenta problema igual com relação ao PTB. O partido a apóia, até com mais deputados e senadores do que o PR, mas seu presidente, Roberto Jefferson, encontra-se banido do palácio do Planalto. Jamais foi convocado, ainda que não abra mão do cargo.

***

AS INTOCÁVEIS

Dessa novela de horror ainda inconclusa emergem personagens intocáveis. São as empreiteiras, aquelas que superfaturando o preço das obras, canalizavam comissões e propina para os agora afastados altos funcionários do ministério dos Transportes. Nada parece capaz de atingi-las. Mesmo com os contratos sob exame, não haverá como revogá-los, coisa que paralisaria os trabalhos em execução. Nenhuma devassa conseguirá levar seus responsáveis ao banco dos réus, até porque sua blindagem parece inatingível. Dispõem de influência e de obras em muitos outros ministérios, quer dizer, em muitos outros partidos, bancadas e regiões. Detém cada vez maiores parcelas de poder, sem falar de presença na mídia.

***

E O LULA?

Já se escreveu que nada será capaz de afastar a presidente Dilma do ex-presidente Lula. No relacionamento entre eles jamais se estabelecerá a emulação entre criatura e criador. Mesmo assim, o antecessor foi responsável pela permanência de Alfredo Nascimento nos Transportes durante quase todo o seu duplo mandato e, mais, pela permanência dele no governo da sucessora. Corre a versão de ter-se devido ao Lula a sobrevida de quatro dias do agora ex-ministro em sua pasta. De sua inspiração teria sido a esdrúxula nota de confiança da presidente em Nascimento. �

A pergunta que se faz é se o Lula vai interferir na nomeação do novo ministro. Mestre na arte de engolir sapos, sua inclinação seria para uma composição de Dilma com o Partido da República, ou seja, a aceitação de um nome indicado por suas bancadas. Resta saber se ela aceitará a permanência do ministério dos Transportes como feudo de uma legenda cujo presidente de honra é Waldemar da Costa Netto.

Nenhum comentário:

Postar um comentário