Deve a presidente Dilma Rousseff estar concluindo que governar o Brasil é participar de uma interminável corrida de obstáculos. Ultrapassado um, logo vem outro. Não terá sido fácil levar Alfredo Nascimento a exonerar-se do ministério dos Transportes. Ele não entendeu o primeiro recado, que era para sair junto com os quatro assessores flagrados em atos de corrupção e postos para fora por ato isolado e unilateral da presidente. Ficou. Por conta dos 42 deputados e 6 senadores do PR, ainda arrancou uma nota de apoio e confiança do palácio do Planalto.
Como se a lambança continuasse, agora atingindo um filho do ministro, a demissão surgiu inevitável, mas Nascimento ainda tentou sobreviver, mobilizando seu partido. Não conseguiu. O fato de Dilma haver convocado o secretário-executivo do ministério para despachar assuntos do PAC, sem dar conhecimento ao ministro, foi mais um sinal. Caso não escrevesse a carta de despedida, seria despedido sem ela.
Tudo resolvido? Nem pensar. O PR, agora presidido pelo ex-ministro, reivindica o lugar e não aceita a solução ideal para Dilma, que seria efetivar o secretário-executivo Paulo Sérgio Passos. A solução ficou inconclusa, com as bancadas do partido já ameaçando de forma ostensiva obstruir os trabalhos parlamentares se não vier a indicar o novo ministro.
Há quem sustente que a presidente deve aproveitar a oportunidade para libertar-se de uma vez das sucessivas chantagens que vem sofrendo no Congresso, não apenas por parte do PR, mas, em grau bem maior, do PMDB e do PT. Sem contar a herança recebida do Lula, que impôs boa parte do ministério. O preço poderia sair caro, ainda que compensador. Ensejaria a Dilma livrar-se de outros ministros que lhe foram enfiados goela abaixo pela base oficial e pelo antecessor, obviamente isolados no governo, alguns até hoje sem ter sido chamados para despachar em seu gabinete. Vale evitar o constrangimento de fulanizá-los, mas estão à vista de todos. Em especial aqueles que nenhuma intimidade tinham e continuam não tendo com os setores da administração que dirigem.
UM OUTRO ROBERTO JEFFERSON
Quanto a Alfredo Nascimento, enfrentará dois problemas: voltando ao Senado, precisará explicar-se ao Conselho de Ética, mesmo composto, em maioria, por senadores acostumados a não condenar ninguém. O problema é que se lhe faltou idoneidade para continuar ministro, como encontrará condições para exercer o mandato?
Acresce que voltando a presidir o PR, de que forma entrará no gabinete presidencial para as reuniões do Conselho Político e sucedâneos? Envergonhado? Arrogante? Disposto à revanche? Será bom interlocutor, caso chamado a indicar o novo ministro? A
A presidente já enfrenta problema igual com relação ao PTB. O partido a apóia, até com mais deputados e senadores do que o PR, mas seu presidente, Roberto Jefferson, encontra-se banido do palácio do Planalto. Jamais foi convocado, ainda que não abra mão do cargo.
AS INTOCÁVEIS
Dessa novela de horror ainda inconclusa emergem personagens intocáveis. São as empreiteiras, aquelas que superfaturando o preço das obras, canalizavam comissões e propina para os agora afastados altos funcionários do ministério dos Transportes. Nada parece capaz de atingi-las. Mesmo com os contratos sob exame, não haverá como revogá-los, coisa que paralisaria os trabalhos em execução. Nenhuma devassa conseguirá levar seus responsáveis ao banco dos réus, até porque sua blindagem parece inatingível. Dispõem de influência e de obras em muitos outros ministérios, quer dizer, em muitos outros partidos, bancadas e regiões. Detém cada vez maiores parcelas de poder, sem falar de presença na mídia.
E O LULA?
A pergunta que se faz é se o Lula vai interferir na nomeação do novo ministro. Mestre na arte de engolir sapos, sua inclinação seria para uma composição de Dilma com o Partido da República, ou seja, a aceitação de um nome indicado por suas bancadas. Resta saber se ela aceitará a permanência do ministério dos Transportes como feudo de uma legenda cujo presidente de honra é Waldemar da Costa Netto.
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